Ele ligou o carro naquele domingo de manhã. Deu a partida. Ajeitei a franjinha curta, limpei os óculos. O quebra sol estava manchado pelo tempo. O couro creme e suas bordas demasiado amareladas. O cheiro gasto do estofamento. O cheiro do café servido em copos de isopor. Sorri ao movimento dos seus fios castanho claros quase nada grisalhos - e o cheiro mal disfarçado e permanente de cigarro. Não estava cansado. Tinha uma vida pela frente, ajeitava os cabelos curtos e colocava então os óculos escuros de aviador. Usava camisa de verão. De passeio. De domingo de manhã. De tudo e coisa nenhuma. Vestia o frescor daquela esperança dissimulada. Da fuga. Do simulacro de fuga e liberdade. Eu não estava mais em sua visão periférica. Estava ao redor. Estava ao lado. Olhava para mim, sorria. Olhava com convicção para meus shorts jeans falsamente desgastados. O sol lançava uma faixa quente sobre as minhas pernas. Sobre minhas mãos cruzadas. Sobre os tornozelos apoiados no painel. Subia sua mão direita com a naturalidade de quem sempre pôde fazê-lo. Suas mãos que me excediam por completo em pelo menos três décadas. O sorriso retangular apertava os olhos por trás das lentes escuras. E tudo ficava doce de repente, sua magreza contraída num riso convencional. E o céu azul se tornava alheio. O vento que entrava pela janela era demasiado real. Era fresco. Uivava através dos vidros. E o café, como era de se esperar, já estava frio.
segunda-feira, dezembro 22, 2014
quarta-feira, dezembro 03, 2014
Eu fico aqui hoje
Em seus olhos havia muito sal. Na pele havia pouca dúvida, seus cabelos quentes pelo sol pendiam frouxos sobre os ombros. Sobre o nariz uma linha alaranjada. Sobre a linha poucas sardas. O pescoço para trás e o riso muito alto e muito perto. Sua pele quente sobre os lençóis tão frescos, a manhã tão clara. A janela de repente tão pessoal, de repente um mundo enquadrado, e eu sei que o que resta é a a lembrança dessa janela, é a visão de um instante tão comum, das árvores que se igualam a teu quarto em altura, dos pássaros que nelas habitam ou apenas pousam se anunciando, da vida pulsante e adormecida nas janelas logo em frente, o que fica são estes meus fios castanhos que tocam o assoalho - o teto tão vasto, a cabeça além do colchão e o ar tão fresco.
segunda-feira, outubro 27, 2014
Segunda-feira
Nós estamos aqui, os olhos cerrados pelo sol do meio-dia, trigueiros de nariz franzido e pupilas contraídas, estamos aqui ajeitando a mochila sobre os ombros, guardando um suéter que outrora esteve pendurado em uma arara, impessoal, uma individualidade junto com tantas outras peças e tantos outros filmes e tantas outras músicas e livros aos quais vamos nos agarrar. E eu guardo o suéter agora meu e devidamente amassado na mochila, o suéter que eu posso amassar e guardar em meio a livros, papéis e uma infinidade de segundas e quartas-feiras. E estamos levemente presos ao chão, e como se não fôssemos de fato ingênuos, contemplamos o céu como quem fita as próprias mãos, e como se não soubéssemos que somos já tardiamente adultos, olhamos através da janela do transporte, a calçada a passar, tudo em seu lugar e tudo irremediavelmente em seu lugar, e tornamo-nos acostumados às chaves perdidas, às horas claras, às palavras não ditas, aos livros abandonados pela metade, àquela corrosiva simpatia dos jantares, tornamo-nos acostumados a dormir pouco e gozar o tempo perdido, e tornamo-nos acostumados a fechar os olhos e sentir a chuva de um filme que vimos e dormir planejando viver uma hora a mais amanhã, prometendo que amanhã o dia será mais longo e mais belo, que não haverá apatia, que o sol do meio-dia cerrará nossos olhos queimados e nada mais.
quinta-feira, setembro 18, 2014
Jantar em família
Porque todo dia era cinza e verde, e verde e lilás, e laranja e cinza e lilás e castanho, toda manhã era uma tarde sem fim, e com você toda tarde era amanhecer de olhos semi-abertos. E nós queríamos que todo dia fosse inverno, que toda garoa fosse vista da janela, que todo verde fosse nosso, que toda primavera fosse rosa claro e que o lilás de suas pálpebras fechadas pudesse cristalizar toda a inocência que fingimos ter. Não vamos adoecer. Suas pálpebras em lilás translúcido - e a certeza, não vamos adoecer, vamos viver pra sempre, vamos deitar em lençóis frescos e sonhar que toda tarde é cinza e verde, que toda garoa é vista de dentro, que o castanho de seus olhos estará guardado.
Eles sorriam e no dia seguinte seriam os mesmos. E no dia depois disso, seus sonhos seriam novamente repetidos e assim até a exaustão. E o ano que vem é um futuro agora tão possível até a gente perceber que já chegou o natal. E então o ano novo, e ao ar livre de olhos abertos somos os mesmos. O que são dois anos, cinco ou seis. O que é mais um ano? Ainda temos quinze, dezenove, vinte e dois, e aos trinta não teremos mais que pouco mais de vinte. E o que fazemos da vida? Sim, vivemos bem, não, não, tenho emprego, aí tem a carreira acadêmica, entende. Daqui a alguns anos, sim, daqui a alguns anos, não sei, vou traduzir, publicar. É, não sei, tenho que ver, só pesquisa mesmo.
Não estão envelhecidos e cansados, estão? Não, ainda são tão jovens, há muitos anos já que são tão jovens quanto poderiam ser, e ano após ano, que fazer? Afinal, são poucos anos. Sim, tem que correr atrás dos seus sonhos, sabe? Você merece. Estuda, poxa, que bonito, eu admiro isso, mas - e o que você vai fazer?
Suas pálpebras em lilás translúcido - e a certeza, não vamos adoecer, vamos viver pra sempre, vamos deitar em lençóis frescos e sonhar que toda tarde é cinza e verde, que toda garoa é vista de dentro, que o castanho de seus olhos estará guardado.
domingo, agosto 31, 2014
Luz do sol
ela abria os olhos
e era pequena
menor ainda
que os lençóis em que dormia
menor ainda
que a garoa vista de dentro
de dentro via
rosa
lilás
verde, cinza
rosa
cinza
translúcido
via que
estava parada
permanecia imóvel
em movimentos circulares
um
dois
três
quatro, cinco
cinco
permanecia
imóvel
em si mesma
e via apenas
que no ar há sons
que ela mesma só via
no quadro de suas cores
sob suas pálpebras fechadas
pelo sol que parecia queimar
e abria os olhos
ainda menor
e era pequena
menor ainda
que os lençóis em que dormia
menor ainda
que a garoa vista de dentro
de dentro via
rosa
lilás
verde, cinza
rosa
cinza
translúcido
via que
estava parada
permanecia imóvel
em movimentos circulares
um
dois
três
quatro, cinco
cinco
permanecia
imóvel
em si mesma
e via apenas
que no ar há sons
que ela mesma só via
no quadro de suas cores
sob suas pálpebras fechadas
pelo sol que parecia queimar
e abria os olhos
ainda menor
quinta-feira, agosto 14, 2014
Almoço em casa
Casualmente, ele deixou o garfo pousar no prato. Casualmente fez-se aquele som tão familiar, que no ambiente corta o silêncio sem interrompê-lo. Levou o guardanapo aos lábios, não que estivessem sujos. Fitou brevemente a janela, a linha de seu olhar acima dos olhos dela.
Ela, ao enganar-se, quis sorrir. Fitou as mãos dele, sua camisa, as flores do papel de parede já desbotado, bebeu do suco, levou uma garfada à boca e por sua vez, pousou delicadamente os talheres no prato.
Ela baixou os olhos, como que pensativa ou alheia. Ele tornou a olhar na direção da janela, que estava aberta. Quis dizer que seus cabelos tinham um tom de mel quando contra a fraca luz do sol que vinha de fora - uma cor fugaz da luz do meio-dia de outono que o fazia lembrar um livro que lera, ou um filme que assistira já há muito tempo. Ou talvez de nada disso. Quis dizer que gostaria de fotografá-la, se soubesse como fazê-lo. Quis dizer que através daquela janela aberta, da luz que chegava em seus olhos filtrada por seus fios castanhos - através daquela luz, quis dizer que ouvia música. Quis dizer que ouvia um som distante de um disco de vinil, conservado por saudosistas românticos e apagados como ele. Quis dizer que estava linda. Quis levantar da mesa, quis ir lá fora, quis que no assoalho houvesse um tapete, quis que junto à parede houvesse um vinil que, como ele, permanecesse girando sob uma agulha fina e gentil. Quis vê-la nua como na primeira vez - e ela certamente iria sorrir, ela certamente baixaria o rosto e sorriria por baixo de seus cachos castanhos em desalinho. Quis dizer que gostava de qualquer paisagem no outono. Quis enterrar seus dedos nos seus cabelos penteados.
Após examinar longamente o padrão de sua sua camisa, ela subiu olhar aos olhos negros que agora lhe fitavam. Ele sorriu, e em seu sorriso havia uma amargura que ela desejou não reconhecer.
quarta-feira, julho 02, 2014
Lolita
Eu estive pensando - disse. Eu estive sonhando - e dormindo. Eu estive confusa - disse, resoluta. Seus cachos na luz amarelada, a selva de seus cílios pretos fazendo sombra sobre as sardas. E eu estive pensando - disse, o pescoço para trás, como quando outrora prensava os cabelos contra a parede. E os olhos apertavam-se em uma simpatia infantil e inesperada. E eu estive pensando - e deitava novamente a cabeça no travesseiro, e novamente ria entre seus cabelos pretos e a alvorada tão casual. Eu não quis dizer - e suas costelas então arfantes estavam de repente sob a luz natural. E com uma voz que era não mais que um terceiro, soltou um riso trêmulo, indo embora com uma desfaçatez pueril.
Fotografia: Ananda Campello
terça-feira, maio 27, 2014
Outono
Mas você nunca acreditaria em mim, ela disse. Os cabelos molhados corretamente desembaraçados sobre os ombros vestidos. Os dentes a despontar em seu brilho de um branco que ganhara tons de verniz amarelado. O rosto demasiado limpo, a pele sobre os ossos agora era luz e sombra. Uma mariposa de tons azulados voou pelo quarto, pousando fatidicamente no copo com água esquecido sobre o criado-mudo. O animal descorou-se brevemente, deixando sua tinta preta descer espiralada pelo copo como um pincel em aquarela. Você nunca acreditaria. Fez-se uma pausa e sua garganta apertou-se novamente. Fez-se uma pausa e ela imaginou que tirava a mariposa do copo com um lápis - não o fez. Era dia, e uma folha seca pôde entrar pela janela. Contida e estranhamente leve, fez-se perplexa diante de tais incidentes - como tudo pode tornar-se estranho! Não tornou a dizer, mas nós sabíamos - eu nunca acreditaria.
segunda-feira, maio 19, 2014
A janela do quarto, em seu vidro emoldurado, era só espera, era só um talvez permanente - uma serenidade inquietante. A madrugada, ao suspender o tempo e a ação, é a hora mais concreta. E do lado de lá da janela era também a hora mais fria e mais escura, e então a imagem não mais emoldurada ardia em seus pulmões, penetrando-lhes a cada piscar ritmado de olhos, e seu rosto contorcia-se em um sorriso infantil e clandestino. E sabia que desceria ao chão, os olhos fixos na parede, de joelhos diante de - diante de algo ou alguém que ela não ousaria evocar, mas esperava desconcertada. Sim, havia histórias, havia rumores. Ponderando sobre elas, sabia que nada havia de mais concreto que a neblina - a neblina de lá de fora, e ela imaginava como seria se estivesse em seus pulmões.
domingo, abril 20, 2014
Carmilla
Eram muitas veias e não se sabia quanto sangue havia ali, e nada se podia supor sobre os caminhos lilases e o verde menta pulsante a formar aquarelas na pele demasiado alheia. Nas notas em pastel e nos fios muito pretos só se podia especular - e ela devia sorrir de confusão e ser graciosa. Na penumbra e no sol a despontar, pálido e precoce, os caninos de tempos eram expostos - mas nada respondiam em sua insuportável doçura.
sexta-feira, abril 18, 2014
Repouso
Um, dois, três. E na calçada os passos em cinza, cinco, seis, sete, oito, em castanho - e há também aquela quase vegetação a despontar das arestas. Três, quatro. O pôr-do-sol a queimar as retinas, não convidado mas permitido, ardem os olhos por capricho.
Chega em casa, tira os calçados. Veste os olhos de luz e sombra a cada movimento de interruptor. Nu, com fome e com sede enfim, permite-se fitar pelo espelho. As janelas fechadas, a natureza - ou a sugestão dela - em paisagem novamente. O rosto estranho emoldurado pelo brilho dos fios castanhos de repente muito sujos. Sua nudez tona-se apenas um embaraço no banheiro frio, interrompida pelo olhar de um outro que não havia sido convidado - apenas permitido.
Os olhos fechados então debaixo do chuveiro elétrico. A água quente no escuro torna-se cinza, torna-se castanha e ele podia jurar que havia verde. Cinco, seis, sete, oito.
domingo, outubro 27, 2013
O leitor
One Art (Elizabeth Bishop)
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something everyday. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
Neste espaço que eu até então destinava ao que conseguia escrever, passo a incluir um pouco das infinitas linhas que gostaria de ter escrito. Não sei se posso dizer se realmente passei, mas abri um precedente. E uma vez que isto se dá, tudo está então imprevisível. E estamos às cegas - como sempre estivemos - mas em um escuro demasiado tangível, familiar em cada canto. E em cada canto deste escuro eu deito na posição de leitor.
E aqui eu digo, em uma primeira pessoa que já não é um outro, que o leitor é cada um de seus narradores e heróis. Somente dos seus, estejamos atentos. E o leitor torna-se cada um dos eus que toma para si. Torna-se cada dia mais um outro e cada vez menos estranho se apresenta a si mesmo.
E não sabemos mais quanto nos emaranhamos nesses doces simulacros - parecem de fato doces, e é desta maneira que os vestimos.
terça-feira, outubro 22, 2013
Primavera
Na eletricidade de sua pele foram-se horas. Foram dias em poucos minutos. Por uma questão de delicadeza, as horas passam. E olho para a neblina fina sobre o asfalto, sobre tudo que hesita e não diz, através da janela, e atrás da janela permaneço. E na neblina doce perdem-se horas. E o ar que respiramos torna-se turvo. E nada mudou - mas tudo já é um outro. Um outro que permanece sobre o asfalto, nem sólido nem líquido, os olhos negros fitando através da neblina sem cor. Por uma questão de delicadeza, as cores tornam-se um cinza latejante. E a neblina nivela todas as pendências em sua inebriante brancura. E em uma calada anestesia, sinto pesar sua doce ausência.
sexta-feira, outubro 04, 2013
Quarta-feira e madrugada
Ele, por uma questão de sanidade, jazia sobre o tapete da sala, coberto pelas luzes de outrem, vindas dos apartamentos que ele longamente espiava - e fingia que era luz da lua. Por uma questão de sanidade, ainda vestido e de sapatos. Naquela madrugada tão encravada no meio da semana. Seu relógio sobre a escrivaninha - e ao lado, jaziam também, em choque, livros, cadernos de anotações e papéis deliciosamente despropositados.
E era evidente que ele não podia dizer palavra. Não podia levantar os braços. Não tremia. Não estava pálido. Os olhos em uma calmaria gritante fitavam o teto - quase lobotomizados. Respirava, então. O ar vinha de todas as partes, e ele apreciava aquela oxigenação consciente. Se pudesse se mover, começaria a cavar. Cavaria túneis. E por dentro deles moveria-se resoluto. Não hesitaria diante de uma bifurcação - em seu próprio túnel. Construiria labirintos subterrâneos.
O teto brilhava. E ele, por uma questão de sobrevivência, via-se sem saída, e então - e então era evidente que sufocava, os olhos injetados na beleza de seus labirintos floridos, os lábios entreabertos indiferentes ao ar, as pernas em suas calças pretas estiradas.
quarta-feira, setembro 25, 2013
Dormi
Decerto que ela estaria lá. Seu queixo apontando para o canto, seu rosto imóvel e seus olhos encarando de repente, os cachos soltos em volta do pescoço, movendo-se em direção ao rosto. Seus ombros certamente sacudindo para cima. Os pés que não tocavam o chão e, por isso, brincavam na grama, faziam-se insolentes; mas sabemos que insolentes são seus olhos - ora fitando o solo, ora ajustando-se novamente às órbitas - de quem, então? Fazia-se ligeiramente insana, fazia que não sabia, que não atinava, que não via. Mas insano, sabemos, é o tempo, que dia após dia nos cobre de mais terra e de nós mesmos, e então pousamos o olhar nas paredes, nas mãos, e no céu por chover. E é evidente que tudo se dará amanhã. E no dia depois disso. E então tudo estará iluminado de sentido. E então em vez de badaladas haverá música. E todos deixarão de fitar as próprias mãos e telefones para dançar. E seus pés também ao brincar na grama poderão amassá-la sobre a terra. E a chuva virá, e seu rosto apontará para cima, seus cachos molhados de chuva ficarão colados aos ombros e as costas. E amanhã poderemos sorrir.
sexta-feira, agosto 30, 2013
Visitante
Havia cinza. Havia vermelho e havia azul. Havia verde. Havia preto em seus olhos. E o branco cingido em vermelho. E havia lilás em seus lábios pálidos. E havia o castanho de seu cabelo frio - em desalinho, ainda úmido, alguns fios invadindo seu rosto atônito. E seus lábios entreabertos apenas respiravam em frente à porta. E em seus pés havia terra. E o negro em seus olhos de repente estava vivo. Engoliu a palavra entrecortada e ela tornou-se dita.
quinta-feira, agosto 15, 2013
Sal
O amargo se fez doce. A náusea se fez inércia, e sua histérica quietude se fez desrazão.
Havia sol, e no mar havia espuma. E na espuma seu corpo se fez surdo. E o sol em seus cabelos molhados de sal, o sol em seus olhos vermelhos, nas suas faces trigueiras, em seu estômago gelado. Seus olhos injetados e a espuma cristalizando seu corpo. E na areia alguém observava. E se podia também desatinar em terra firme. Alguém na areia, onde o vento já não fustigava. E o sol sobre ambos, e todos ali sob mesmo calor tornavam-se ausentes. Tornavam-se natureza. E nossos olhos injetados, então. Em um instante em que tudo se liquefazia.
quinta-feira, julho 25, 2013
Aurora
O chão era frio. Como antes fora. O chão era frio e seus olhos ardiam no céu negro em que cintilavam tons de azul e de tudo o que era real. E de coisa nenhuma. E as mãos que lhe tocavam o rosto de tempos em tempos eram também reais, e ainda tangíveis se enterravam em seus cabelos. E a grama fria tornava-se mais cálida. E os cabelos que mal tocavam seu corpo que errava deitado no mesmo lugar eram frios e reais. Eram fios castanhos que tornariam-se úmidos de orvalho. Eram longos fios castanhos que moviam-se cerrados no azul que de negro tornava-se pálido e cinzento. E pálidos e embriagados de todas as cores adormeciam na grama úmida, sob tudo o que não era real.
terça-feira, julho 02, 2013
Arco-íris
Acordava em seu quarto ainda por se iluminar do dia. Seus olhos pareciam arder - mas arder é outra coisa, seus olhos ainda estavam pequenos demais na urgência da madrugada. O sonho se arrastava em seus ombros, soprava seus calcanhares. A escuridão nunca fora tão colorida - brilhava no espelho um estranho. No banheiro iluminado pelo abajur do quarto havia a imagem que transgredia o sonho. E em sua nudez errante voltou então ao carrossel dos corcéis sem face e sem matéria. E saiu andando pelo quarto. A ponta dos pés mal tocando o assoalho. Seus olhos agora ardentes fechados em seu sorriso mudo. E havia música, e porque havia musica ele dançava.
quinta-feira, maio 23, 2013
De sono e coisa nenhuma
E então naquela sonolência muda ele resolveu-se. Quis resolver a vida em um instante. Quis esperar. Quis pôr tudo em ordem sem espera. Quis acordar enfim. Ele sacudiu-se. Esfregou aqueles olhos tão fora de compasso. Quis deter naquele momento a surdez de sua pele. A dormência de seus traços. Estremeceu sem surpresa. Não hesitou. Tentou mover-se, e quis estar calado. Naquele instante de súbito tremor. De estranho despertar dos caminhos de suas dúvidas de tudo e coisa nenhuma. Do estranho despertar de si mesmo tão embriagado de sono. E cada pêlo em seu corpo ergueu-se numa eletricidade sem fim.
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