sexta-feira, abril 18, 2014

Repouso

Um, dois, três. E na calçada os passos em cinza, cinco, seis, sete, oito, em castanho - e há também aquela quase vegetação a despontar das arestas. Três, quatro. O pôr-do-sol a queimar as retinas, não convidado mas permitido, ardem os olhos por capricho. 

Chega em casa, tira os calçados. Veste os olhos de luz e sombra a cada movimento de interruptor. Nu, com fome e com sede enfim, permite-se fitar pelo espelho. As janelas fechadas, a natureza - ou a sugestão dela - em paisagem novamente. O rosto estranho emoldurado pelo brilho dos fios castanhos de repente muito sujos. Sua nudez tona-se apenas um embaraço no banheiro frio, interrompida pelo olhar de um outro que não havia sido convidado - apenas permitido.

Os olhos fechados então debaixo do chuveiro elétrico. A água quente no escuro torna-se cinza, torna-se castanha e ele podia jurar que havia verde. Cinco, seis, sete, oito. 

domingo, outubro 27, 2013

O leitor


One Art (Elizabeth Bishop)

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something everyday. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.



Neste espaço que eu até então destinava ao que conseguia escrever, passo a incluir um pouco das infinitas linhas  que gostaria de ter escrito. Não sei se posso dizer se realmente passei, mas abri um precedente. E uma vez que isto se dá, tudo está então imprevisível. E estamos às cegas - como sempre estivemos - mas em um escuro demasiado tangível, familiar em cada canto. E em cada canto deste escuro eu deito na posição de leitor. 
E aqui eu digo, em uma primeira pessoa que já não é um outro, que o leitor é cada um de seus narradores e heróis. Somente dos seus, estejamos atentos. E o leitor torna-se cada um dos eus que toma para si. Torna-se cada dia mais um outro e cada vez menos estranho se apresenta a si mesmo.
E não sabemos mais quanto nos emaranhamos  nesses doces simulacros - parecem de fato doces, e é desta maneira que os vestimos. 

terça-feira, outubro 22, 2013

Primavera

Na eletricidade de sua pele foram-se horas. Foram dias em poucos minutos. Por uma questão de delicadeza, as horas passam. E olho para a neblina fina sobre o asfalto, sobre tudo que hesita e não diz, através da janela, e atrás da janela permaneço. E na neblina doce perdem-se horas. E o ar que respiramos torna-se turvo. E nada mudou - mas tudo já é um outro. Um outro que permanece sobre o asfalto, nem sólido nem líquido, os olhos  negros fitando através da neblina sem cor. Por uma questão de delicadeza, as cores tornam-se um cinza latejante. E a neblina nivela todas as pendências em sua inebriante brancura. E em uma calada anestesia, sinto pesar sua doce ausência.

sexta-feira, outubro 04, 2013

Quarta-feira e madrugada

Ele, por uma questão de sanidade, jazia sobre o tapete da sala, coberto pelas luzes de outrem, vindas dos apartamentos que ele longamente espiava - e fingia que era luz da lua. Por uma questão de sanidade, ainda vestido e de sapatos. Naquela madrugada tão encravada no meio da semana. Seu relógio sobre a escrivaninha - e ao lado, jaziam também, em choque, livros, cadernos de anotações e papéis deliciosamente despropositados. 

E era evidente que ele não podia dizer palavra.  Não podia levantar os braços. Não tremia. Não estava pálido. Os olhos em uma calmaria gritante fitavam o teto - quase lobotomizados. Respirava, então. O ar vinha de todas as partes, e ele apreciava aquela oxigenação consciente. Se pudesse se mover, começaria a cavar. Cavaria túneis. E por dentro deles moveria-se resoluto. Não hesitaria diante de uma bifurcação - em seu próprio túnel. Construiria labirintos subterrâneos. 

O teto brilhava. E ele, por uma questão de sobrevivência, via-se sem saída, e então - e então era evidente que sufocava, os olhos injetados na beleza de seus labirintos floridos, os lábios entreabertos indiferentes ao ar, as pernas em suas calças pretas estiradas.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Dormi

Decerto que ela estaria lá. Seu queixo apontando para o canto, seu rosto imóvel e seus olhos encarando de repente, os cachos soltos em volta do pescoço, movendo-se em direção ao rosto. Seus ombros certamente sacudindo para cima. Os pés que não tocavam o chão e, por isso, brincavam na grama, faziam-se insolentes; mas sabemos que insolentes são seus olhos - ora fitando o solo, ora ajustando-se novamente às órbitas - de quem, então? Fazia-se ligeiramente insana, fazia que não sabia, que não atinava, que não via. Mas insano, sabemos, é o tempo, que dia após dia nos cobre de mais terra e de nós mesmos, e então pousamos o olhar nas paredes, nas mãos, e no céu por chover. E é evidente que tudo se dará amanhã. E  no dia depois disso. E então tudo estará iluminado de sentido. E então em vez de badaladas haverá música. E todos deixarão de fitar as próprias mãos e telefones para dançar. E seus pés também ao brincar na grama poderão amassá-la sobre a terra. E a chuva virá, e seu rosto apontará para cima, seus cachos molhados de chuva ficarão colados aos ombros e as costas. E amanhã poderemos sorrir. 

sexta-feira, agosto 30, 2013

Visitante

Havia cinza. Havia vermelho e havia azul. Havia verde. Havia preto  em seus olhos. E o branco cingido em vermelho. E havia lilás em seus lábios pálidos. E havia o castanho de seu cabelo frio - em desalinho, ainda úmido, alguns fios invadindo seu rosto atônito. E seus lábios entreabertos apenas respiravam em frente à porta. E em seus pés havia terra. E o negro em seus olhos de repente estava vivo. Engoliu a palavra entrecortada e ela tornou-se dita. 

quinta-feira, agosto 15, 2013

Sal

O amargo se fez doce. A náusea se fez inércia, e sua histérica quietude se fez desrazão.

Havia sol, e no mar havia espuma. E na espuma seu corpo se fez surdo. E o sol em seus cabelos molhados de sal, o sol em seus olhos vermelhos, nas suas faces trigueiras, em seu estômago gelado. Seus olhos injetados e a espuma cristalizando seu corpo. E na areia alguém observava. E  se podia também desatinar em terra firme. Alguém na areia, onde o vento já não fustigava. E o sol sobre ambos, e todos ali sob mesmo calor tornavam-se ausentes. Tornavam-se natureza. E nossos olhos injetados, então. Em um instante em que tudo se liquefazia.

quinta-feira, julho 25, 2013

Aurora

O chão era frio. Como antes fora. O chão era frio e seus olhos ardiam no céu negro em que cintilavam tons de azul e de tudo o que era real. E de coisa nenhuma. E as mãos que lhe tocavam o rosto de tempos em tempos eram também reais, e ainda tangíveis se enterravam em seus cabelos. E a grama fria tornava-se mais cálida. E os cabelos que mal tocavam seu corpo que errava deitado no mesmo lugar eram frios e reais. Eram fios castanhos que tornariam-se úmidos de orvalho. Eram longos fios castanhos que moviam-se cerrados no azul que de negro tornava-se pálido e cinzento. E pálidos e embriagados de todas as cores adormeciam na grama úmida, sob tudo o que não era real. 

terça-feira, julho 02, 2013

Arco-íris

Acordava em seu quarto ainda por se iluminar do dia. Seus olhos pareciam arder - mas arder é outra coisa, seus olhos ainda estavam pequenos demais na urgência da madrugada. O sonho se arrastava em seus ombros, soprava seus calcanhares. A escuridão nunca fora tão colorida - brilhava no espelho um estranho. No banheiro iluminado pelo abajur do quarto havia a imagem que transgredia o sonho. E em sua nudez errante voltou então ao carrossel dos corcéis sem face e sem matéria. E saiu andando pelo quarto. A ponta dos pés mal tocando o assoalho. Seus olhos agora ardentes fechados em seu sorriso mudo. E havia música, e porque havia musica ele dançava.

quinta-feira, maio 23, 2013

De sono e coisa nenhuma

E então naquela sonolência muda ele resolveu-se. Quis resolver a vida em um instante. Quis esperar. Quis pôr tudo em ordem sem espera. Quis acordar enfim. Ele sacudiu-se. Esfregou aqueles olhos tão fora de compasso. Quis deter naquele momento a surdez de sua pele. A dormência de seus traços. Estremeceu sem surpresa. Não hesitou. Tentou mover-se, e quis estar calado. Naquele instante de súbito tremor. De estranho despertar dos caminhos de suas dúvidas de tudo e coisa nenhuma. Do estranho despertar de si mesmo tão embriagado de sono. E cada pêlo em seu corpo ergueu-se numa eletricidade sem fim.